"Ah, como é bom poder te escrever! Como é bom ter certeza de que aqui - e somente aqui - direi verdades. Como é bom poder expressar o que, na verdade, quero cuspir na sua cara. Leia em voz alta para que todos possam ouvir. Serei curta e grossa, como sempre deveria fazer. Mas a genética, felizmente, não funcionou conosco.
Hipocrisia, muita hipocrisia. Andar com adesivo escrito "Deus é Fiel" não salva a alma de ninguém. Dar 10% do seu salário para ajudar no orçamento do carro do pastor, também não adianta. Apontar que isso ou aquilo está errado, não é a conduta de um fiel ao Senhor. Talvez a religião te tenha feito aflorar ainda mais esse lado, não acha? Pelo que lembro dessa época sombria de minha ainda curta vida, humilhar, desprezar e ignorar também não são atitudes que a Senhora Igreja prega. Contraditório, portanto, hipocrisia. É, devo confessar que você me ajudou muito a deixar a religião de lado. E hoje, sou uma pessoa descrente de tudo. Inclusive de você. Questiono se há o certo e o errado. Julgar não é o meu forte no que diz respeito às escolhas de outras pessoas, quer dizer: o certo e o errado são relativos. Ah pai, acho que a genética falhou de novo conosco.
Ainda me recordo das nossas posições na sala quando me contou sobre um possível filho feito "na paralela". Me lembro de como não deu importância pelo fato de me contar e me lembro muito bem de como contou. Não tinha coragem de olhar nos meus olhos, tampouco de falar a verdade. Você sempre foi homem de meias-verdades. E me pedia segredo. Mal soube você o quanto foi difícil guardar esse incrível acontecimento [até emociona!] por um ano, sem conseguir olhar nos olhos da minha mãe, do meu irmão. Ali eu te dava um voto de confiança. E, o que dizem, é que não te traí. Também me lembro com muita clareza de te ouvir falar que iria dar certo, de que você era adulto o suficiente e sabia o que estava fazendo. Não comunicou, não deu atenção, não quis ouvir ninguém. Casou-se com uma ordinária vestida de missionária e trouxe a debutante pra dormir na cama que era minha. E quando eu soube da grande novidade, saí como vilã da história toda, porque tinha ciúmes do pai. Os familiares apontavam, cochichavam, induziam e eu cedi. Mais um voto de confiança, na intenção de provar que não era perseguição PORRA NENHUMA.
Hoje, querido pai, enquanto você sai pra trabalhar, a perua vestida de boa samaritana se pendura no telefone, levando a palavra aos irmãos que não têm acesso à sagrada escritura, COM O SEU DINHEIRO. A bruxa vestida de lady vai ao cabelereiro, às compras, à loja de cosméticos, COM O SEU DINHEIRO. É com ele que ela pode ver o netinho que mora em Brasília, a mãe que morre de fome no interior de Goiás, a pastora que faz milagre de olhos fechados na Rocinha. De fato, tua mulher ganhou na loteria. E não vou te falar o que eu deixo de fazer por estar sem dinheiro. Aliás, o que dizem é que deveria agradecer aos céus [glória à Deus] pela filha que tem. Mas não repetirei isso, caso contrário, corto os pulsos ali e volto depois.
E pra finalizar, me lembro também da primeira vez que tive nojo de você. Sinta-se feliz por nunca ter tido coragem...enfim. Não irei me esquecer dessa segunda vez, acredite nisso. Que você queira ser idiota, tudo bem. Que queira ajudar na compra das cuecas dos padres, tudo bem também. Mas que queira interferir na minha vida, sinto muito, chegou tarde demais. Que não venha me cobrar atitudes que você mesmo não tem. Se isso acontecer, agora numa linguagem chã, é merda no ventilador na certa. Porque tudo é uma GRANDE merda. É uma armadilha...e, definitivamente, não sou mais a menininha que você criou. Quando o dinheiro não for mais problema, veja-me despedindo de você. Nem que o rumo seja a casa do caralho."
- a menina agora só chora, enquanto lamenta por nunca ter conseguido mudar o enredo da história.